Blog do Cristian Arantes

Lacan Seminário 8: A Transferência em PDF

Lacan Seminário 8

Resumo do Livro “Lacan Seminário 8: A Transferência”

O Seminário 8 de Jacques Lacan, intitulado A Transferência, proferido entre 1960 e 1961, é uma investigação profunda sobre o motor e, ao mesmo tempo, o maior obstáculo de toda análise: a transferência. Definida por Freud como a atualização de sentimentos, desejos e atitudes inconscientes na figura do analista, a transferência é o campo onde se joga o destino de um tratamento. Lacan, no entanto, vai além da visão freudiana e se pergunta: o que, exatamente, se transfere? E qual a verdadeira natureza do amor de transferência?

Para responder a essas questões, Lacan realiza um movimento magistral: ele deixa de lado os textos psicanalíticos e se volta para a filosofia clássica, propondo uma leitura detalhada de “O Banquete” de Platão. Neste diálogo sobre a natureza do amor (Eros), Lacan encontra uma estrutura que lhe permite desvendar a lógica da transferência. Ele se concentra na dramática declaração de amor de Alcibíades a Sócrates. Alcibíades, o belo e poderoso jovem ateniense, ama Sócrates não por sua aparência feia, mas porque ele supõe que Sócrates esconde dentro de si um objeto precioso, um tesouro: o ágalma. É essa suposição que funda o amor. Lacan transpõe essa estrutura para a análise: o analisando ama o analista porque supõe que ele detém um saber sobre a causa de seu desejo, o objeto a. A transferência é, portanto, a atualização da relação do sujeito com o objeto causa de seu desejo. Este seminário redefine o manejo da transferência e introduz um conceito ético fundamental: o desejo do analista, que deve ser um desejo que não cede à demanda de amor do paciente para permitir que o verdadeiro objeto em questão possa emergir.

O Amor de Transferência e o Sujeito Suposto Saber

Desde Freud, a psicanálise sabe que a transferência é a mola mestra do tratamento. É o amor (ou o ódio) dirigido ao analista que dá ao paciente a força para superar as resistências e associar livremente. No entanto, a transferência é também a maior resistência, pois o paciente, ao demandar amor do analista, tenta repetir um padrão antigo e evitar o confronto com a verdade de seu desejo.

Lacan formaliza a mola da transferência com o conceito de Sujeito Suposto Saber. No momento em que o analisando entra em análise, ele faz uma suposição fundamental: ele supõe que o analista detém um saber sobre o seu sofrimento, sobre o seu sintoma. Ele supõe que suas palavras, aparentemente sem sentido, têm um significado oculto que o analista pode decifrar. É essa suposição de um saber no campo do Outro (encarnado pelo analista) que instaura a transferência e permite que o processo analítico comece.

O amor de transferência, portanto, não é um amor genuíno dirigido à pessoa do analista. É um amor dirigido ao saber que se supõe que ele possui. O analisando ama no analista a promessa de que ele finalmente encontrará a verdade sobre si mesmo. O analista, para Lacan, não deve se identificar com essa posição de mestre ou de detentor da verdade. Ele deve usar a transferência para permitir que o analisando produza seu próprio saber, um saber que já está lá, no inconsciente, mas que ele não sabe que sabe.

“O amor, certamente, é verdadeiro. O que não quer dizer que ele aponte para uma verdade.” – Jacques Lacan, Seminário 8

Lacan adverte contra o perigo de o analista responder à demanda de amor do paciente. Se o analista se deixa seduzir e entra no jogo de ser o amante ideal, ele fecha a porta do inconsciente e transforma a análise em uma sugestão, uma relação dual imaginária que apenas reforça a alienação do sujeito.

“O Banquete” de Platão: Sócrates, Alcibíades e o Ágalma

Para desvendar a estrutura do amor, Lacan nos guia por uma leitura fascinante de “O Banquete”. O diálogo de Platão apresenta vários discursos sobre Eros, mas Lacan se concentra na intervenção final de Alcibíades. Bêbado e apaixonado, Alcibíades invade a cena e faz um elogio paradoxal a Sócrates. Ele o compara a um Sileno, uma estatueta feia por fora, mas que, quando aberta, revela em seu interior imagens de deuses, objetos preciosos.

Alcibíades diz: “Eu digo que Sócrates é semelhante a esses Silenos que se veem expostos nas oficinas dos estatuários… quem os abre, porém, e os vê por dentro, neles encontrará umas divinas e douradas imagens, cheias de formosura”. Esse objeto precioso escondido dentro do invólucro feio é o que Lacan chama de ágalma.

Alcibíades ama Sócrates porque ele acredita que Sócrates possui esse ágalma, esse tesouro. Ele quer esse objeto para si. No entanto, Sócrates se recusa a dar o que não tem. Ele se esquiva, desvia o desejo de Alcibíades para outros jovens, como Agatão. Sócrates, na leitura de Lacan, ocupa o lugar do analista. Ele sabe que o ágalma não é algo que ele possui, mas é o próprio objeto causa do desejo de Alcibíades. O ágalma é o objeto a. O amante (Alcibíades, o analisando) é aquele que, sentindo sua própria falta, busca no amado (Sócrates, o analista) o objeto que ele acredita que o completaria.

Essa dialética revela a estrutura da transferência:

  • O Analisando (Amante): Como Alcibíades, ele se sente em falta e busca no analista o objeto que lhe falta.
  • O Analista (Amado): Como Sócrates, ele é colocado no lugar de quem possui o ágalma, o objeto causa do desejo (objeto a).
  • O Ágalma (Objeto a): O objeto precioso que o analisando supõe que o analista possui, mas que, na verdade, é a causa de seu próprio desejo, um objeto que lhe é íntimo, mas ao mesmo tempo exterior (éxtimo).

A transferência é o momento em que o analisando, ao falar, faz surgir em seu discurso, sem saber, esse objeto a, e o localiza no analista.

O Desejo do Analista no Seminário 8 de Lacan

A partir dessa estrutura, Lacan elabora um dos conceitos éticos mais importantes de sua clínica: o desejo do analista. Se o analisando demanda amor e supõe que o analista possui o saber e o objeto, qual deve ser a posição do analista? O que o analista deve desejar?

O desejo do analista não é um desejo por um bem particular, nem o desejo de curar ou de guiar o paciente. É um desejo muito mais radical e depurado. O desejo do analista é um desejo de que a análise aconteça, um desejo de que o inconsciente se manifeste e que o sujeito advenha. É um desejo de alcançar a diferença absoluta, ou seja, de permitir que a singularidade radical do desejo do analisando emerja, para além de qualquer norma ou ideal.

Para que isso seja possível, o analista deve operar a partir de uma posição de “des-ser”. Ele não deve desejar nada para o paciente. Ele deve esvaziar seu próprio lugar de seus preconceitos, de seus ideais e de sua demanda pessoal. Ele deve se oferecer como um lugar vazio, um “morto” no jogo, para que o desejo do analisando possa se desdobrar. O desejo do analista é, em suma, um desejo que permite o desejo do outro.

Isso implica que o analista não pode responder à demanda de amor do paciente. Ele não pode se colocar como o amante ideal nem como o mestre que sabe. Ele deve frustrar a demanda para que o desejo que está por trás dela possa aparecer. É uma posição difícil e eticamente exigente, que requer que o analista tenha ele mesmo atravessado sua própria análise e se confrontado com a sua própria falta.

Conclusão: A Transferência como Manobra

O Seminário 8: A Transferência transforma a compreensão desse fenômeno fundamental. A transferência deixa de ser vista como um simples afeto ou uma repetição do passado e passa a ser entendida como uma estrutura lógica, uma manobra complexa em torno do saber e do objeto causa do desejo. O amor de transferência é um engano, mas um engano necessário, pois é ele que coloca em cena o objeto a, o verdadeiro pivô da análise.

Lacan, através de sua leitura de “O Banquete”, nos dá uma chave para o manejo da transferência. O analista, como Sócrates, deve saber que ele não possui o ágalma que o analisando lhe atribui. Sua função é permitir que o analisando reconheça que esse tesouro, a causa de seu desejo, é algo que lhe pertence, embora ele não o soubesse. O fim da análise implica uma queda do Sujeito Suposto Saber, uma separação do analista e a assunção, por parte do sujeito, da sua própria falta e da causa singular de seu desejo.

Este seminário é uma leitura essencial para qualquer praticante ou estudante de psicanálise, pois ele vai ao coração da ética e da técnica do tratamento. Para explorar a fundo a dialética do amor e do desejo na análise, o Lacan Seminário 8 em PDF é um recurso indispensável.

LINK PARA DOWNLOAD

Está gostando do conteúdo? Compartilhe!

0 0 votos
Classificação do artigo
Inscrever-se
Notificar de
0 Comentários