Blog do Cristian Arantes

Pulsão na Psicanálise: Entenda a força que te faz repetir erros e criar desejos

o que é pulsao

Você já se perguntou por que, às vezes, fazemos exatamente aquilo que sabemos que vai nos fazer mal? Ou por que sentimos uma energia inexplicável para criar algo, mas logo depois somos invadidos por uma vontade de “largar tudo” e ficar no escuro? Ou ainda, resta um vazio inexplicável e que apesar de tudo estar bem, você não sabe porque continua vivendo esse ciclo de repetições?

Para a psicanálise, a resposta não está na “falta de força de vontade”, mas em um conceito fundamental chamado pulsão. Se você quer entender o que é pulsão para Freud, esqueça as definições de dicionário por um momento e pense nela como o “combustível” do seu desejo.

O que é pulsão para Freud: Por que não somos como os animais?

Muitos confundem pulsão com instinto, mas a diferença é o que nos torna humanos. Um gato sente fome, come a ração e vai dormir. O problema dele está resolvido porque o instinto é biológico e tem um alvo fixo.

Conosco, é diferente. Nós não apenas “comemos”; nós escolhemos o restaurante, o tempero, a companhia, e muitas vezes comemos até passar mal, mesmo sem fome física. Isso acontece porque a nossa pulsão é uma exigência de prazer que o corpo faz à mente, e ela nunca fica totalmente satisfeita.

Exemplo prático: O instinto diz: “beba água para não morrer”. A pulsão diz: “eu quero aquela marca específica de café, naquela xícara favorita, enquanto leio um livro”. A pulsão transforma a necessidade biológica em um ritual cheio de significados.

Os Quatro Elementos da Pulsão no Dia a Dia

Para Freud, a pulsão tem quatro partes. Vamos traduzi-las para a vida real:

  1. A Pressão (Drang): É aquele “cutucão” interno que não te deixa em paz. Sabe quando você sente que precisa fazer algo, mas não sabe bem o quê? Essa força constante é a pressão.

  2. A Fonte (Quelle): É de onde vem o estímulo. Geralmente nasce de uma tensão no corpo (boca, olhos, pele). Pense na ansiedade que faz você querer roer as unhas — a boca é a fonte.

  3. O Alvo (Ziel): É a descarga. O objetivo da pulsão é sempre diminuir a tensão. No exemplo da unha, o alvo é o alívio que você sente logo após roê-la.

  4. O Objeto (Objekt): É o que usamos para nos satisfazer. E aqui está o “pulo do gato”: o objeto da pulsão é totalmente substituível. Se você não tem unhas para roer, pode começar a mastigar uma tampa de caneta. A pulsão é flexível.

Pulsão de Vida e Pulsão de Morte: O Cabo de Guerra Interno

Freud percebeu que a nossa mente vive em um eterno conflito entre duas forças gigantescas. Entender o equilíbrio entre pulsão de vida e pulsão de morte é a chave para entender a saúde mental. Isso não te faz evitá-las, mas sim, entender os processos e obter ferramentas para que possa buscar ajuda se necessário.

Eros: A Pulsão de Vida (O que nos faz construir)

A pulsão de vida é tudo aquilo que nos empurra para a conexão, para o amor e para a criação. Ela é a força que nos faz querer fazer amigos, aprender uma língua nova, cuidar do corpo ou decorar a casa. É a força que faz sublimar através da arte, criar uma escultura, iniciar um novo projeto, casar-se ou simplesmente, dedicar-se a um voluntariado, a algo que goste de fazer.

  • No cotidiano: Quando você decide fazer um curso de culinária para reunir a família, é Eros agindo. Você está ligando coisas, criando laços e investindo na continuidade da vida.

O que significa pulsão de morte?

Aqui é onde a maioria das pessoas se confunde. O que significa pulsão de morte (Tânatos)? Não é necessariamente um desejo de morrer, mas uma tendência ao “desligamento”. É uma força que busca o silêncio, a inércia e o fim das tensões.

Sabe aquele comportamento autodestrutivo que parece não ter lógica?

  • A autossabotagem: Você tem uma reunião importante amanhã, mas “escolhe” ficar assistindo séries até às 4h da manhã.

  • O vício na briga: Aquele casal que não consegue ter paz e sempre inventa um motivo para discutir e “quebrar” a harmonia.

  • O isolamento radical: Aquela vontade de sumir, desligar o celular e não falar com ninguém, fugindo de qualquer estímulo.

A pulsão de morte busca o “grau zero”. Ela quer que a gente pare de sofrer, e o jeito mais radical de parar de sofrer é parar de sentir — ou seja, se desestruturar. A busca da pulsão de morte é manter a familiaridade da sua rotina, ainda que ela seja disfuncional ou indesejada.

Por que é tão difícil mudar?

Se você é alguém tentando se entender, já deve ter notado que saber o que é certo não garante que faremos o certo. Isso acontece porque a pulsão de morte é conservadora; ela gosta da repetição.

Muitas vezes, preferimos o “sofrimento conhecido” (pulsão de morte) do que o “prazer desconhecido” (pulsão de vida), porque o novo exige esforço, gera tensão e nos tira da zona de conforto. Por isso, a psicanálise trabalha com a repetição para deslocar o sintoma, e não com a psicoeducação. A ideia não é trabalhar com condicionamento ou com exercícios cognitivos, e sim, permitir que o sujeito entre em contato com seus conflitos, se implique no seu sintoma e possa repetir através da fala livre até que elabore, e assim, dê um novo lugar ao seu sofrimento.

Como lidar com essas forças?

A saída não é “eliminar” a pulsão de morte — isso é impossível, ela faz parte de nós. O segredo é o que Freud chamava de sublimação. É dar um destino produtivo para essa energia bruta. Por exemplo, o desejo de atirar em alguém pode culminar em um profissional da segurança pública ético e que com o devido controle emocional, somente atira se necessário, mas que pratica tiro esportivo nas horas vagas. O desejo de bater em alguém pode tornar a pessoa uma atleta do judô ou boxe, que além de praticar um esporte, aprenderá autodefesa e a disciplina inerente às artes marciais. Veja outros exemplos abaixo:

  • A agressividade (pulsão de morte) pode virar a garra de um atleta ou a precisão de um cirurgião.

  • O desejo de se entender melhor e curar-se pode fazer com que um paciente venha a se tornar psicanalista ou psicólogo.
  • A busca por prazer (pulsão de vida) pode virar arte, trabalho ou cuidado com o próximo.

Sintetizando os conceitos de pulsão para Freud:

  • Pulsão: Uma pressão interna constante, diferente do instinto animal.

  • Pulsão de Vida: Força de união, criação, sexo e sobrevivência.

  • Pulsão de Morte: Força de desintegração, repetição e busca pelo repouso absoluto (inércia).

Entender esses conceitos nos tira da culpa. Começamos a perceber que nossos conflitos não são defeitos de caráter, mas o resultado de um jogo de forças complexo que acontece dentro de todo ser humano.

Olhe que interessante como a própria palavra ‘compulsão’, nos impele a pensar que algo ocorre ‘com pulsão’. Esse pequeno jogo de palavras pode nos dizer mais sobre a característica do comportamento compulsivo dentro da psique.

A Evolução do Conceito: Klein, Winnicott e Lacan

Depois de Freud, a pulsão ganhou novas cores através de seus sucessores, tornando a clínica psicanalítica ainda mais rica:

  • Melanie Klein: Viu a pulsão como algo que já nasce ligado a objetos. Para ela, a agressividade (pulsão de morte) é o que nos faz “morder” o mundo, e o amor (pulsão de vida) é o que nos faz querer reparar o que estragamos.

  • Donald Winnicott: Focou na vitalidade. Para ele, a pulsão precisa de um ambiente seguro para se transformar em criatividade. Se o mundo sobrevive à nossa agressividade pulsional, aprendemos a brincar e a criar.

  • Jacques Lacan: Deu um salto teórico ao dizer que a pulsão contorna um vazio. Para Lacan, o prazer não está em “ter” o objeto, mas no circuito de buscá-lo. É o que explica o colecionador que, ao completar a coleção, perde o interesse e começa outra, ou a pessoa que uma vez resolvido um conflito, busca outro para chamar de seu.

Onde ler mais: As Obras de Referência

Se você deseja aprofundar seus estudos, as fontes primárias de Freud são o caminho para evitar interpretações rasas:

  1. Três Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade (1905): Onde ele separa a pulsão da biologia pura.

  2. As Pulsões e suas Vicissitudes (1915): O guia técnico sobre os componentes da pulsão. Importante notar que a edição Standard que traduz Freud do inglês erroneamente traduziu Trieb (pulsão) como instinto. Leiam com isso em mente.

  3. Além do Princípio do Prazer (1920): A obra fundamental onde surge a pulsão de morte.

  4. O Ego e o Id (1923): Onde ele explica como o nosso “eu” lida com essas forças selvagens.

Dando um Destino à sua Pulsão

Entender a pulsão é parar de se culpar por ter desejos contraditórios ou por repetir erros do passado. É reconhecer que dentro de cada um de nós existe um jogo de forças que precisa ser escutado e, se possível, sublimado — transformado em arte, trabalho, amor e sentido.

Lidar com essas forças sozinho pode ser exaustivo. A análise é o espaço onde você pode traduzir essa pressão silenciosa em palavras, encontrando novas formas de viver com mais liberdade e menos repetição.

Quer aprofundar sua jornada de autoconhecimento?

Agende uma sessão de psicanálise online com Cristian Arantes. Um espaço ético e acolhedor para você entender o que move os seus desejos e dar um novo destino às suas pulsões.

Está gostando do conteúdo? Compartilhe!

0 0 votos
Classificação do artigo
Inscrever-se
Notificar de
0 Comentários