Blog do Cristian Arantes

Lacan Seminário 12: Problemas Cruciais para a Psicanálise em PDF

Lacan Seminário 12

Resumo do Livro “Lacan Seminário 12: Problemas Cruciais para a Psicanálise”

O Seminário 12 de Jacques Lacan, intitulado Problemas Cruciais para a Psicanálise, proferido entre 1964 e 1965, continua a exploração dos fundamentos da psicanálise iniciada no seminário anterior. Tendo estabelecido os quatro conceitos fundamentais, Lacan agora se volta para os problemas que deles decorrem e que desafiam a prática e a teoria psicanalítica. Dois problemas cruciais se destacam neste seminário: a divisão do sujeito ($) e a sexualidade feminina. Lacan argumenta que esses não são problemas marginais, mas questões centrais que revelam os limites do saber psicanalítico e forçam a um avanço teórico.

Lacan aprofunda sua concepção do sujeito como fundamentalmente dividido pela linguagem. O sujeito do inconsciente não é uma entidade unificada, mas um efeito da cadeia significante, uma fenda, uma hiância. Essa divisão é incurável e é a fonte tanto do sofrimento quanto da criatividade humana. A análise não visa a suturar essa divisão, mas a permitir que o sujeito se reconheça nela. A segunda metade do seminário mergulha em uma das questões mais espinhosas para a psicanálise desde Freud: “O que quer uma mulher?”. Lacan critica as respostas tradicionais, que tentam definir a mulher a partir da lógica masculina (a lógica fálica), seja como uma versão castrada do homem, seja através de uma suposta essência feminina. Ele começa a esboçar uma lógica diferente para a sexualidade feminina, uma lógica do “não-todo”, que não se submete inteiramente à função fálica, abrindo espaço para um gozo para além do falo, um gozo Outro. Este seminário é, portanto, um trabalho de fronteira, que leva a psicanálise a confrontar seus próprios impasses para poder avançar.

A Divisão do Sujeito ($): O Sujeito como Falta-a-Ser

Lacan retoma e aprofunda a ideia de que o sujeito do inconsciente é, por estrutura, um sujeito dividido. Ele o representa com o matema $, o S barrado. Essa barra não representa uma repressão ou um defeito, mas a própria condição de existência do sujeito na linguagem. O sujeito é barrado por duas razões fundamentais:

  1. Alienação: Ao entrar na linguagem, o sujeito precisa se representar por um significante (S1) no campo do Outro (A). No entanto, um significante nunca pode representar o sujeito em sua totalidade. Ao ser representado, o sujeito é petrificado, mortificado, alienado. Ele se torna um objeto na cadeia de significantes do Outro. Há uma perda de ser nesse processo. O sujeito só aparece como representado, mas o preço dessa representação é o desaparecimento de seu ser.
  2. Separação: O sujeito também é dividido porque o Outro da linguagem é, ele mesmo, incompleto, barrado (S(Ⱥ)). A linguagem não tem um significante final que possa garantir a verdade. Há um buraco no Outro. A separação é o movimento pelo qual o sujeito se confronta com essa falta no Outro e a assume como sua própria falta, a falta-a-ser que causa seu desejo. O sujeito se separa do Outro ao se identificar com a falta do Outro.

“Eu penso onde não sou, logo sou onde não penso.” – Jacques Lacan

Essa famosa citação, uma subversão do cogito cartesiano, resume a divisão do sujeito. O “eu penso” (o sujeito da enunciação, o sujeito do inconsciente) está sempre em um lugar diferente do “eu sou” (o sujeito do enunciado, o eu imaginário). A análise, para Lacan, é a experiência que permite ao sujeito localizar essa divisão e falar a partir dela, em vez de tentar incessantemente suturá-la através de identificações imaginárias. A divisão não é um problema a ser resolvido, mas a própria estrutura que possibilita o desejo e a palavra.

A Sexualidade Feminina: Para Além do Falo

O segundo problema crucial que Lacan aborda é a sexualidade feminina. Ele reconhece que a teoria psicanalítica, desde Freud, teve dificuldades em pensar a mulher para além da referência ao homem. A teoria freudiana do complexo de Édipo e da inveja do pênis (Penisneid) tendia a definir a mulher pela falta, como um homem castrado.

Lacan critica essa perspectiva, que ele chama de lógica fálica. A lógica fálica é a lógica do universal, do “todo”. Nela, tudo se define em relação a um significante mestre, o falo (Φ), que representa o gozo e o poder. O homem, em sua posição sexuada, se inscreve totalmente nessa lógica. Ele se submete à castração simbólica para poder “ter” o falo e usá-lo.

Lacan começa a explorar a ideia de que a mulher não se inscreve “toda” na lógica fálica. Isso não significa que ela esteja fora dela (ela também é marcada pela castração e se relaciona com o falo), mas que sua relação com o gozo não é inteiramente regulada pelo falo. Há algo na mulher que escapa a essa lógica universalizante.

É aqui que Lacan introduz a lógica do “não-todo”. A mulher é “não-toda” fálica. Isso tem duas consequências:

  1. Não existe “A” Mulher: Como elas não são “todas” submetidas à função fálica, não se pode criar um conjunto universal de “todas as mulheres”. Não há um significante que defina a essência da feminilidade. As mulheres devem ser tomadas uma a uma, em sua singularidade.
  2. Um Gozo Outro: Por não estarem “todas” na lógica fálica, as mulheres têm acesso a um gozo suplementar, um gozo Outro, para além do gozo fálico (o gozo ligado ao órgão, à representação). Esse gozo Outro é enigmático, inefável, místico. É um gozo do corpo, mas um corpo que não se limita à representação fálica. É o gozo que os místicos, como Santa Teresa, tentaram descrever, um gozo que é ao mesmo tempo êxtase e dor, e que não pode ser dito.

Lacan ainda está tateando neste seminário, e desenvolverá plenamente essa teoria no Seminário 20, “Mais, ainda”. Mas as bases estão lançadas. Ele abre a possibilidade de pensar a sexualidade feminina não como uma falta, mas como uma lógica diferente, uma lógica do não-todo e do infinito.

Conclusão: A Psicanálise nos Limites do Saber

O Seminário 12: Problemas Cruciais para a Psicanálise é um testemunho da honestidade intelectual de Lacan. Ele não hesita em confrontar os pontos onde a teoria psicanalítica falha, onde o saber se mostra insuficiente. A divisão do sujeito e a sexualidade feminina são dois desses pontos.

Ao aprofundar a lógica da divisão do sujeito, Lacan reafirma que a psicanálise não é uma psicologia do eu nem uma terapia de adaptação. É uma experiência que leva o sujeito a se confrontar com a falta-a-ser que o constitui, abrindo espaço para a invenção de uma nova posição desejante.

Ao abordar a sexualidade feminina, Lacan inicia uma das mais importantes desconstruções da teoria psicanalítica, libertando o pensamento sobre a mulher da primazia da lógica fálica. Ele nos convida a escutar o que, na clínica, escapa às nossas teorias, a estar abertos a uma alteridade radical que não pode ser capturada por universais.

Este seminário é um exercício de pensamento nos limites. Ele nos mostra uma psicanálise viva, que não se contenta com as respostas prontas, mas que se sustenta a partir de suas próprias questões. Para quem deseja acompanhar Lacan em sua exploração das fronteiras do saber psicanalítico, o estudo do Lacan Seminário 12 em PDF é uma jornada desafiadora e essencial.

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