Blog do Cristian Arantes

Lacan Seminário 27: Dissolução em PDF

Lacan Seminario 27

Resumo do Livro “Lacan Seminário 27: Dissolução”

O Seminário 27 de Jacques Lacan, intitulado Dissolução, proferido em 1980, não é um seminário no sentido tradicional. Trata-se de um conjunto de intervenções, cartas e pronunciamentos feitos por Lacan no momento em que ele decide dissolver sua própria Escola, a Escola Freudiana de Paris (EFP). Este seminário é, portanto, um ato político dramático, um testamento e uma reflexão amarga sobre os impasses da transmissão da psicanálise e o futuro do movimento psicanalítico.

Lacan, sentindo que sua Escola havia se tornado o oposto do que ele pretendia – um lugar de hierarquia, de dogmatismo e de resistência à sua própria ensino – toma a decisão radical de dissolvê-la. O seminário é o registro desse ato e da justificativa para ele. Lacan diagnostica o mal que aflige sua Escola: o “efeito de grupo”, a cola imaginária que transforma um grupo de trabalho em uma massa coesa e resistente à verdade. Ele lamenta que seu ensino, especialmente o dispositivo do passe, não tenha conseguido evitar que a Escola se tornasse mais uma igreja. A dissolução é um ato desesperado, um último esforço para salvar a psicanálise de seus próprios demônios institucionais. É um seminário sobre o fracasso, a traição e a solidão do analista, mas também um chamado à responsabilidade e à invenção de um novo laço social para a psicanálise.

O Diagnóstico: O Efeito de Grupo e a Cola Imaginária

Lacan começa por diagnosticar o problema de sua Escola. Ele observa que a EFP, fundada por ele em 1964 para ser um lugar de trabalho e de questionamento, havia caído no que ele chama de “efeito de grupo”. O grupo, para Lacan, é o inimigo da psicanálise. Ele se baseia na identificação imaginária a um líder (neste caso, o próprio Lacan) e na segregação daqueles que não pertencem ao grupo.

O que mantém o grupo unido é uma “cola” (colle), uma aderência imaginária que impede o pensamento crítico e a emergência da singularidade. Os membros da Escola, em vez de se autorizarem de si mesmos e de sua própria análise, buscavam a garantia e o reconhecimento do grupo e do mestre. A Escola havia se tornado uma instituição hierárquica, com suas lutas de poder, suas panelinhas e sua resistência ao ensino mais radical de Lacan, especialmente o ensino sobre o Real e o sinthoma.

Lacan se vê em uma posição impossível. Ele, que havia lutado contra a burocracia e o dogmatismo da Associação Psicanalítica Internacional (IPA), via sua própria Escola repetir os mesmos erros. Ele se sentia como um “pai da horda” cujo nome era usado para justificar a estagnação e a mediocridade.

O Fracasso do Passe

O principal alvo da amargura de Lacan é o fracasso do passe. O passe, o dispositivo que ele havia criado para verificar o fim da análise e nomear os Analistas da Escola (AE), não havia funcionado como ele esperava. Em vez de ser um lugar de transmissão de um saber sobre a lógica do fim da análise, o passe havia se tornado mais um degrau na carreira institucional, um título a ser cobiçado.

Lacan constata que os testemunhos do passe raramente conseguiam transmitir a singularidade da experiência. Eles se tornavam relatos padronizados, que buscavam agradar ao júri e se conformar a uma ideia pré-concebida do que seria um “bom” fim de análise. O passe, que deveria ser o antídoto para a identificação, havia se tornado ele mesmo um instrumento de identificação.

O fracasso do passe é, para Lacan, o sintoma do fracasso da Escola em sustentar um discurso verdadeiramente analítico. A Escola não conseguiu criar um laço social que não fosse baseado no efeito de grupo e na identificação imaginária.

O Ato da Dissolução

Diante desse diagnóstico sombrio, Lacan toma uma decisão radical e solitária: a dissolução da Escola Freudiana de Paris. Em janeiro de 1980, ele publica sua “Carta de Dissolução”. É um ato de corte, um ato que chocou a comunidade psicanalítica mundial.

Por que dissolver? Lacan explica que a Escola havia se tornado uma barreira para a transmissão da psicanálise. Ela havia se tornado um fim em si mesma, em vez de ser um meio para o trabalho. A única maneira de salvar a causa freudiana era destruir a instituição que a estava sufocando.

A dissolução é um ato que espelha a lógica do fim da análise. Assim como o analisando, no final, deve se separar do analista, Lacan, como fundador, se separa de sua criação. É um ato de “des-ser”, uma renúncia ao poder e à posição de mestre. Lacan se retira para que algo novo possa, talvez, surgir.

Imediatamente após a dissolução, Lacan convoca seus seguidores a se juntarem a ele em uma nova aventura, a Causa Freudiana. Ele não propõe uma nova Escola, mas um “campo”, um espaço de trabalho mais fluido, sem a rigidez institucional da EFP. Ele apela para aqueles que ainda querem trabalhar, para aqueles que não se contentam com o conforto do grupo.

O Futuro da Psicanálise: Solidão e Invenção

O Seminário 27 é um testamento sombrio, mas também um chamado à responsabilidade. Lacan não oferece soluções fáceis para o problema da transmissão da psicanálise. Ele parece sugerir que talvez a psicanálise esteja fadada a fracassar em sua tentativa de se institucionalizar.

O futuro da psicanálise, para Lacan, não está nas grandes instituições, mas na solidão do ato analítico. A psicanálise existe, em última instância, na relação singular entre um analista e um analisando. O analista está sozinho, autorizado apenas por si mesmo e pelo seu próprio percurso. Ele não pode se apoiar na garantia de um grupo ou de uma teoria.

O que resta é a necessidade de invenção. Cada analista, cada analisando, deve reinventar a psicanálise para si mesmo. Diante do fracasso do Simbólico em dar conta do Real, diante da inexistência do Outro, a única saída é a invenção de um sinthoma, de um saber-fazer singular com o gozo.

Conclusão: O Último Ato de Lacan

O Seminário 27: Dissolução não é um seminário teórico no mesmo sentido dos anteriores. É um ato, o último grande ato público de Lacan. É a performance de um mestre que, para salvar seu ensino, decide destruir sua própria casa.

Este seminário é uma leitura essencial para quem se interessa pela política da psicanálise e pelos desafios da sua transmissão. Ele nos mostra um Lacan envelhecido, desiludido, mas ainda combativo, um Lacan que se recusa a ceder de seu desejo, mesmo que isso signifique a autodestruição. Lacan foi fiel seguidor de Freud, tanto que afirmou: “sou freudiano, sejam vocês lacanianos se o quiserem”.

A dissolução da EFP é um evento traumático na história da psicanálise, cujas consequências são sentidas até hoje. Mas é também um lembrete radical da ética que sustenta o ensino de Lacan: a de que nenhuma instituição, nenhuma teoria, nenhum mestre pode substituir a responsabilidade do sujeito em inventar sua própria resposta ao Real. Para entender o legado final de Lacan e os desafios que ele deixou para o futuro da psicanálise, a leitura do Lacan Seminário 27 em PDF é uma experiência incontornável.

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