Blog do Cristian Arantes

O Cheiro do Ralo: Merda, Ouro e Psicanálise

o cheiro do ralo

Assistir ao filme O Cheiro do Ralo (2006) ou ler a obra original de Lourenço Mutarelli é uma experiência olfativa mental. Não sentimos o odor físico, mas somos confrontados com o nauseabundo “cheiro” psíquico que exala de uma perversão cotidiana disfarçada de negócio.

Para estudantes e profissionais da psicanálise, a trama é muito mais do que a história de um comprador de móveis usados. É um estudo de caso visceral sobre a economia libidinal de um sujeito travado em uma neurose obsessiva grave, onde o dinheiro, o afeto e o excremento se confundem na mesma moeda de troca.

Neste artigo, integraremos a análise clínica estrutural com reflexões sobre a função paterna e a criação literária, dissecando o personagem Lourenço sob a ótica de Freud e Lacan.

A Dialética do Excremento: Ouro e Merda na Economia Psíquica

O eixo central de O Cheiro do Ralo reside na dualidade entre o que brilha e o que fede. A loja de Lourenço não é apenas um comércio; é a externalização do seu aparelho psíquico, operando sob a lógica do “caráter anal” descrito por Freud.

Na infância, a criança descobre que suas fezes são seu primeiro “presente” ou sua primeira arma de controle contra os pais. O adulto obsessivo mantém essa equação inconsciente: Fezes = Presente = Dinheiro.

Lourenço (Selton Mello) vive cercado de objetos velhos (restos) que ele transforma em dinheiro (ouro). Sua parsimônia e avareza não são financeiras, são libidinais. Ele opera na escassez. Ele retém o afeto com a mesma obstinação com que retém o pagamento, humilhando o vendedor. A transação comercial é sua defesa: ao perguntar “quanto quer por isso?”, ele tenta neutralizar a dívida simbólica e o risco de amar, convertendo o sujeito à sua frente em um objeto descartável.

Perversão ou Defesa Neurótica? O Diagnóstico Diferencial

Uma armadilha comum é diagnosticar Lourenço imediatamente como perverso. Ele apresenta traços inegáveis: sadismo, voyeurismo e fetichismo. Ele goza ao destituir o outro, ao transformar a necessidade alheia em espetáculo de poder.

No entanto, uma escuta mais refinada revela que estamos diante de uma neurose obsessiva que utiliza traços perversos como defesa. Por que não perversão pura? Porque Lourenço é angustiado. O verdadeiro perverso tem certeza do seu gozo e não sente culpa. Lourenço, ao contrário, é assombrado.

Sua perversidade é uma máscara de onipotência para encobrir sua castração. Ele brinca de ser Deus em sua loja — o homem que põe preço em tudo — porque fora dali ele é incapaz de sustentar seu desejo. Ele é um “pequeno tirano” aterrorizado pela própria vulnerabilidade.

O Objeto Parcial: A Bunda e o Olho de Vidro

A relação de Lourenço com o desejo é marcada pela fragmentação. Ele é incapaz de lidar com o objeto total (uma mulher inteira, com voz e demandas). Por isso, ele recorta a realidade através do fetiche.

  1. A Bunda da Garçonete: É o objeto parcial por excelência. Ele quer a parte, não o todo. A bunda não fala, não julga e não pede nada. É a busca por uma satisfação que não passe pela castração da linguagem. Delineia, também, o belo. O belo é um objeto de cobiça por parte do neurótico que possui em sua estrutura elementos de perversão, pois ter a seu lado a beleza envaidece e engrandece o próprio ego.

  2. O Olho de Vidro: A negociação do olho de vidro é simbólica. O olho que não vê representa o olhar morto, o olhar que não o interpela.

Essa busca incessante por “coisas” denuncia uma insaciabilidade estrutural. Como discutido em debates sobre a obra, Lourenço oscila entre dois polos de transtorno do desejo: a lógica da anorexia (recusa do objeto para manter o desejo puro) e a obesidade mórbida (a tentativa de preencher o vazio com tudo o que encontra). Ele devora o mundo com os olhos e com o bolso, mas permanece faminto de afeto.

A Função Paterna e o “Vulto”

Aprofundando a análise para além do óbvio, O Cheiro do Ralo livro traz uma camada densa sobre a paternidade que o filme apenas sugere. O protagonista carrega o nome do autor (Lourenço) e é perseguido por um “vulto”.

Na psicanálise, a função do pai é inserir a Lei, o limite que organiza o psiquismo. Lourenço parece viver o luto patológico de uma figura paterna idealizada e dolorosa. A morte do pai deveria liberá-lo para a vida, mas ele permanece fixado, buscando “pais” substitutos para desafiar ou se submeter.

Sua aversão e, ao mesmo tempo, fascínio pelo poder revelam uma criança que ainda busca aprovação. Ele se tornou um homem que controla tudo para não ter que admitir que foi abandonado ou ferido. O “vulto” que ele vê é o retorno dessa memória, a assombração de uma identidade que não se consolidou plenamente.

O Cheiro do Ralo: O Retorno do Real

O elemento fantástico da trama — o cheiro nauseabundo que emana do ralo e que nenhum encanador resolve — é a metáfora perfeita para o conceito lacaniano de Real.

O Real é aquilo que não pode ser simbolizado, o que sobra, o que não tem imagem. O cheiro é a podridão das relações de Lourenço, a culpa recalcada, o “resto” que ele tenta expulsar de si, mas que insiste em retornar. Quanto mais ele tenta perfumar o ambiente com sua arrogância e dinheiro, mais o cheiro se impõe. É a verdade do sujeito gritando em silêncio: ele é feito da mesma matéria perecível que os objetos que despreza.

Do Livro ao Filme: A Construção da Imagem Mental

Por fim, vale destacar a diferença entre as experiências. A literatura de Mutarelli, escrita em um rompante visceral e rápido, exige que o leitor construa o cenário com seus próprios “restos” mentais. Já o filme entrega a imagem pronta, o que pode gerar frustração, mas também amplia o alcance da obra.

Ambas as mídias, contudo, convergem para o mesmo ponto final: o colapso. A cena em que Lourenço desaba, chorando sobre as nádegas da garçonete, é o momento em que a estrutura obsessiva quebra. O sádico dá lugar ao desamparado.

O Cheiro do Ralo nos ensina que podemos tentar transformar o mundo em mercadoria, mas o afeto sempre cobra seu preço. Para a psicanálise, a obra é um lembrete de que a tentativa de controle absoluto é apenas o outro lado da moeda do desespero absoluto. Lourenço, cercado de tesouros que viraram lixo, descobre tarde demais que a única coisa que realmente tem valor é aquilo que não se pode comprar.

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