Blog do Cristian Arantes

O que é Clivagem? – Mantendo mundos separados dentro de si

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O que é Clivagem?

A clivagem na psicanálise é um mecanismo de defesa que divide o eu quando uma experiência se torna emocionalmente insuportável. O sujeito passa a sustentar duas posições psíquicas ao mesmo tempo: uma reconhece a realidade, enquanto a outra a nega ou a desmente. Em Sigmund Freud, especialmente nos textos sobre fetichismo e psicose, a clivagem aparece como uma solução defensiva diante da angústia de castração ou de perdas traumáticas. Em vez de integrar o conflito, o psiquismo o separa, preservando uma parte da experiência fora do campo da consciência integrada.

A noção de clivagem foi aprofundada por Melanie Klein, que descreveu como, nos primórdios do desenvolvimento, o bebê divide o objeto em “bom” e “mau” para lidar com ansiedades intensas. Já em Donald Winnicott, a clivagem pode surgir como consequência de falhas ambientais precoces, levando à separação entre verdadeiro self e falso self.

Mais tarde, Otto Kernberg relacionou a clivagem às organizações borderline de personalidade, nas quais há alternância entre idealização e desvalorização por dificuldade de integrar aspectos contraditórios de si e do outro. Em todas essas formulações, a clivagem não é apenas fragmentação psíquica, mas uma tentativa de sobrevivência diante do excesso de angústia — ainda que essa defesa limite a capacidade de simbolização e de construção de vínculos mais estáveis.

A cena do cotidiano

Imagine um colega de trabalho que é rigorosamente ético com os relatórios da empresa. Ele não aceita um centavo de erro e julga severamente quem atrasa entregas. Porém, no fim de semana, esse mesmo homem dirige embriagado e sonega impostos sem sentir qualquer culpa.

As duas atitudes (a honestidade radical e a transgressão irresponsável) coexistem nele sem se comunicarem, como se fossem operadas por duas pessoas diferentes. Isso é a Clivagem, conceito amplamente debatido por Melanie Klein e que foi introduzido pela primeira vez por Freud, pai da Psicanálise.

Não é que ele esteja mentindo conscientemente. Naquele momento, a parte dele que preza pela ética está totalmente desconectada da parte que busca vantagem.

O que NÃO é Clivagem (A Diferenciação)

Para entender na prática o que é clivagem, primeiro precisamos limpar o terreno do senso comum.

  • Clivagem não é Hipocrisia: O hipócrita sabe que está sendo contraditório; ele mente para os outros. Na clivagem, o sujeito mente para si mesmo e acredita na mentira. Ele não sente o conflito.

  • Clivagem não é Bipolaridade: Embora a mudança de humor possa ser brusca, a clivagem é um mecanismo de defesa estrutural, não necessariamente um transtorno de humor químico.

Afinal, o que significa Clivagem na Psicanálise?

Se após ler os trechos iniciais desse artigo você ainda não conseguiu contextualizar teoricamente o conceito, aqui irei aprofundar o que é clivagem de acordo com cada autor, para que você possa buscar um constructo teórico que forneça suporte à sua prática.

A clivagem (ou Spaltung no original alemão) é um conceito que evoluiu muito na história da psicanálise. Veja como cada autor a enxerga:

1. Freud e a Negação da Realidade

Freud usou o termo Clivagem do Eu (Ichspaltung) para explicar casos onde a pessoa aceita a realidade e a nega ao mesmo tempo.

  • O Exemplo Clássico: O fetichista. Uma parte da mente dele sabe que a mulher não tem pênis (aceita a castração/diferença sexual). A outra parte recusa essa verdade e cria o fetiche (um sapato, um pé) para substituir aquilo que falta. As duas “verdades” convivem lado a lado, sem se tocar.

2. Melanie Klein: O Seio Bom e o Seio Mau

Foi Melanie Klein quem popularizou a clivagem como um mecanismo central do nosso desenvolvimento emocional. Para ela, o bebê recém-nascido não consegue lidar com a complexidade de que a mãe que alimenta é a mesma mãe que demora a chegar (e frustra).

  • A Solução do Bebê: Para não sentir que seu ódio vai destruir a mãe amada, o bebê cliva (divide) a mãe em duas:

    1. O Seio Bom: Idealizado, perfeito, que só dá prazer.

    2. O Seio Mau: Persecutório, terrível, responsável por toda dor.

  • Na vida adulta: Isso reaparece quando não conseguimos aceitar que uma pessoa amada tenha defeitos. Ou ela é “maravilhosa”, ou vira um “monstro” ao menor erro.

3. Sándor Ferenczi: A Clivagem por Trauma

Ferenczi trouxe uma visão tocante e dolorosa sobre o tema. Para ele, a clivagem ocorre diante de um trauma grave na infância (como abuso ou negligência severa).

  • A “Autoclivagem Narcísica”: Diante de uma dor insuportável, a criança se divide. Uma parte “morre” ou fica sentindo a dor brutalmente, enquanto outra parte se torna um “observador frio”, puramente intelectual, que vigia o mundo para garantir a sobrevivência.

  • O “Bebê Sábio”: Ferenczi descreve crianças que amadurecem rápido demais para cuidar dos pais instáveis. Elas clivam sua parte infantil (que precisa de amor) e operam apenas com uma parte adulta artificial e precária.

Para ler meu livro introdutório sobre Sandor Ferenczi, acesse esse link.

Como isso aparece na sua vida? (As manifestações da clivagem)

  1. Como a clivagem aparece no consultório ou no seu dia a dia?

    O Amor “8 ou 80” (Borderline)

    Este é o exemplo clínico mais comum. O paciente chega dizendo que conheceu “a pessoa mais incrível do mundo”. Duas semanas depois, relata que essa mesma pessoa é “um lixo tóxico” porque não respondeu a uma mensagem.

    • O Mecanismo: A clivagem impede a integração. O sujeito não consegue segurar a imagem de que alguém bom pode fazer algo ruim. Se fez algo ruim, torna-se totalmente mau.

    A “Cegueira” Seletiva

    Vemos muito isso em casos de violência doméstica ou relações abusivas. A vítima descreve o parceiro como carinhoso e protetor, mas, em outro momento da sessão, narra episódios de agressão grave. Quando o analista aponta a contradição, o paciente parece surpreso ou muda de assunto. A parte que ama está clivada da parte que apanha.

    O “Santo” do Escritório e o Tirano de Casa

    Aquele chefe que é conhecido pela filantropia e gentileza pública, mas que dentro de casa humilha a esposa e os filhos. Diferente de uma “dupla face” consciente, ele genuinamente se vê como um homem bom (baseado na sua persona pública) e dissocia completamente seu comportamento doméstico, muitas vezes culpando a família (“eles me provocam”).

Qual a importância de saber o que é clivagem?

A clivagem é um escudo: ela protege da angústia e da ambivalência. Mas o preço que ela cobra é alto. Quem vive clivado vive em um mundo pobre, de preto e branco, sem nuances.

O objetivo da análise — especialmente na visão Kleiniana — é ajudar o paciente a atingir a Posição Depressiva (que, apesar do nome, é uma conquista de saúde). É o momento em que conseguimos juntar as partes:

  • Aceitar que eu sou capaz de amar e odiar.

  • Aceitar que o outro é maravilhoso, mas às vezes chato.

  • Integrar o trauma (a parte que sofreu) à história de vida, parando de fugir dele.

Entender o que é clivagem é importante, pois a transformar a clivagem (separação muda) em conflito (diálogo interno) é o caminho para deixar de repetir padrões destrutivos e começar a fazer escolhas reais.

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