Blog do Cristian Arantes

Lacan Seminário 16: De um Outro ao outro em PDF

Lacan Seminario 16

Resumo do Livro “Lacan Seminário 16: De um Outro ao outro”

O Seminário 16 de Jacques Lacan, intitulado De um Outro ao outro, proferido entre 1968 e 1969, é um dos mais politizados e socialmente engajados de seu ensino. Realizado no rescaldo dos eventos de Maio de 68 em Paris, este seminário reflete uma profunda interrogação sobre a relação entre a psicanálise e o discurso capitalista. Lacan se pergunta: o que a psicanálise tem a dizer sobre a economia, a política e o mal-estar na civilização contemporânea? Para responder, ele forja um conceito novo e poderoso: o mais-de-gozar. Este conceito é explicitamente modelado a partir da mais-valia de Karl Marx. Assim como a mais-valia é o valor excedente extraído do trabalho do proletário, o mais-de-gozar é o gozo excedente, o resto de gozo que é produzido e perdido quando o sujeito é capturado pela máquina da linguagem.

Lacan argumenta que o discurso capitalista explora e gerencia esse mais-de-gozar, prometendo um acesso ilimitado a objetos de consumo (que ele chama de latusas) que supostamente recuperariam o gozo perdido. É neste seminário que Lacan formaliza a ideia do Outro barrado (S(Ⱥ)). O Outro da linguagem, o lugar do saber e da lei, não é completo, não é consistente. Ele é furado, faltoso. É precisamente nesse furo, nessa falha do Outro, que se aloja o objeto a, a causa do desejo, agora redefinido como mais-de-gozar. O seminário é uma jornada que vai da lógica do significante à economia política do gozo, mostrando como a psicanálise pode oferecer uma crítica radical ao laço social moderno e à ilusão de felicidade pelo consumo.

O Outro Barrado (S(Ⱥ)): A Inconsistência do Saber

Lacan aprofunda a ideia de que o Outro (A), o tesouro dos significantes, não é uma entidade onipotente ou onisciente. O Outro é barrado (S(Ⱥ)). Isso significa que não há, no campo da linguagem, um significante final que possa garantir a verdade de todos os outros. Não há um “significante do significante”. A linguagem é um sistema inconsistente, com um buraco em seu centro.

Essa tese tem consequências enormes. Se o Outro é barrado, então não há uma garantia última para o nosso saber, para a nossa identidade ou para a nossa realidade. A verdade só pode ser “meio-dita”. O sujeito, ao se dirigir ao Outro em busca de uma resposta sobre seu ser, encontra não uma resposta final, mas a própria falta do Outro. Essa descoberta é angustiante, mas também libertadora. Se o Outro não sabe tudo, então há espaço para a invenção, para a contingência, para o desejo.

Lacan afirma que a ciência e a filosofia tentaram, cada uma a seu modo, suturar essa falha no Outro, criar sistemas de pensamento totalizantes que negam a inconsistência. A psicanálise, ao contrário, é a prática que leva a sério a barra no Outro. A interpretação analítica não visa a dar um sentido final, mas a apontar para os furos na cadeia significante, para os pontos onde o saber do sujeito falha e onde a verdade de seu desejo pode emergir.

O Mais-de-Gozar: O Gozo como Excedente

É no contexto do Outro barrado que Lacan introduz o conceito de mais-de-gozar. Ele o define como a função do objeto a. Se o Outro é furado, o que se aloja nesse furo? O objeto a, como causa do desejo e, agora, como mais-de-gozar.

Lacan estabelece um paralelo explícito com a mais-valia de Marx:

  • Mais-valia (Marx): No processo de produção, o trabalhador vende sua força de trabalho. O valor que ele produz é maior do que o salário que ele recebe. Essa diferença, esse valor excedente não pago, é a mais-valia, que é apropriada pelo capitalista.
  • Mais-de-gozar (Lacan): No processo de subjetivação, o sujeito, ao entrar na linguagem, renuncia a uma parte de seu gozo natural, mítico (o gozo da Coisa, das Ding). Essa renúncia é o preço a pagar para se tornar um sujeito desejante. No entanto, essa renúncia produz um excedente, um resto de gozo que não é totalmente simbolizado. Esse excedente é o mais-de-gozar. O mais-de-gozar é, ao mesmo tempo, uma perda (o gozo que foi renunciado) e um ganho (o gozo que se obtém através dos objetos parciais da pulsão, os objetos a).

O mais-de-gozar é o motor da economia psíquica. O sujeito está sempre em busca de recuperar esse gozo perdido, mas só consegue fazê-lo de forma parcial, através dos objetos a (seio, fezes, olhar, voz). O sintoma, para Lacan, é uma maneira de gozar, uma forma de organizar o mais-de-gozar.

A Crítica ao Discurso Capitalista

Armado com o conceito de mais-de-gozar, Lacan se volta para a crítica do discurso capitalista. Ele argumenta que o capitalismo é um sistema que compreendeu e explorou a lógica do mais-de-gozar de uma forma sem precedentes.

O discurso capitalista funciona da seguinte maneira:

  1. Rejeição da Castração: O capitalismo nega a falta, a impossibilidade. Ele promove a ideia de que todo gozo é possível, de que tudo pode ser comprado e consumido.
  2. Produção de Latusas: O mercado produz incessantemente novos objetos de consumo, que Lacan chama de latusas (um neologismo). Esses gadgets são projetados para se parecerem com o objeto a, a causa do desejo. Eles prometem preencher a nossa falta e nos devolver o gozo perdido.
  3. Imperativo de Gozo: O capitalismo transforma o desejo em demanda e a demanda em consumo. O imperativo não é mais “deseje”, mas “goze!”. O sujeito é incitado a consumir cada vez mais, em uma busca frenética e interminável por uma satisfação que nunca chega.

O resultado é um novo tipo de mal-estar. O sujeito capitalista é um sujeito frustrado, deprimido, sempre em busca do próximo objeto que irá (ilusoriamente) satisfazê-lo. A promessa de acesso ilimitado ao gozo leva, paradoxalmente, a uma impotência generalizada. A psicanálise, nesse contexto, funciona como o avesso do discurso capitalista. Ela não oferece objetos para preencher a falta, mas ensina o sujeito a lidar com a falta como tal, a reconhecer que a causa de seu desejo não está em nenhum objeto do mercado, mas em sua própria estrutura.

Conclusão: Da Lógica à Economia Política do Desejo

O Seminário 16: De um Outro ao outro marca uma transição crucial no ensino de Lacan. Ele se move da lógica pura do significante para uma análise da economia política do gozo. Ele mostra que a estrutura do sujeito, descoberta pela psicanálise, não está isolada do laço social, mas é profundamente afetada por ele.

Ao forjar o conceito de mais-de-gozar em homologia com a mais-valia de Marx, Lacan cria uma ponte entre a psicanálise e a crítica social. Ele nos dá uma ferramenta poderosa para entender o mal-estar na civilização contemporânea, um mal-estar marcado pela injunção ao gozo e pela proliferação de objetos de consumo que prometem, mas nunca entregam, a felicidade.

Este seminário nos ensina que a psicanálise tem uma função política: a de ser um discurso que resiste à homogeneização capitalista, um lugar onde a singularidade do desejo de cada sujeito pode ser escutada e sustentada contra o imperativo universal do consumo. Para quem busca entender a interface entre psicanálise, política e crítica social, o estudo do Lacan Seminário 16 em PDF é uma leitura urgente e necessária.

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