Blog do Cristian Arantes

Lacan Seminário 17 PDF: Avesso da Psicanálise

Lacan Seminário 17

Resumo do Livro “Lacan Seminário 17: O Avesso da Psicanálise”

O Seminário 17 de Jacques Lacan, intitulado O Avesso da Psicanálise, proferido entre 1969 e 1970, é uma de suas construções teóricas mais elegantes e influentes. Dando continuidade à sua análise do laço social iniciada no seminário anterior, Lacan aqui formaliza uma teoria geral dos laços sociais através de sua célebre teoria dos Quatro Discursos. Estes discursos não são simplesmente maneiras de falar, mas “máquinas” lógicas, estruturas que regulam a circulação do saber, do poder e, fundamentalmente, do gozo nas relações humanas. Os quatro discursos são: o Discurso do Mestre, o Discurso da Universidade, o Discurso da Histérica e o Discurso do Analista.

Lacan demonstra que cada discurso é definido pela posição de quatro elementos em quatro lugares fixos (agente, outro, produto, verdade). Ao girar esses elementos de um quarto de volta, um discurso se transforma em outro. O título do seminário, O Avesso da Psicanálise, revela sua tese central: o Discurso do Analista é o “avesso” do Discurso do Mestre. Enquanto o Mestre busca o domínio e a produção de um saber que o sirva, o Analista opera a partir do lugar do objeto causa do desejo para questionar o Mestre e produzir um sujeito que possa enunciar sua verdade singular. Este seminário é uma ferramenta poderosa para analisar não apenas a clínica psicanalítica, mas também a política, a ciência, a educação e o capitalismo, mostrando como diferentes formas de poder tentam, e sempre fracassam, em dominar o gozo que escapa à linguagem.

A Estrutura dos Quatro Discursos

Lacan propõe uma estrutura formal para pensar os laços sociais. Cada discurso é um arranjo de quatro elementos em quatro lugares. Os elementos são derivados da lógica do significante:

  • S1 (Significante Mestre): O significante da autoridade, da lei, do comando. Representa o poder.
  • S2 (Saber): A cadeia de significantes, o saber articulado, o conhecimento, a burocracia.
  • $ (Sujeito Dividido): O sujeito do inconsciente, o efeito da linguagem, marcado pela falta.
  • a (Objeto a / Mais-de-gozar): O resto da operação simbólica, a causa do desejo, o excedente de gozo.

Os quatro lugares são:

  • Agente (em cima, à esquerda): A posição dominante, quem comanda o discurso.
  • Outro (em cima, à direita): A quem o agente se dirige, o lugar do trabalho.
  • Produto (em baixo, à direita): O que é produzido (ou perdido) pelo discurso.
  • Verdade (em baixo, à esquerda): O que está oculto, o que motiva o agente, mas não é dito.

1. O Discurso do Mestre

Agente: S1 → Outro: S2 Verdade: $ / Produto: a

Este é o discurso fundamental, o discurso original. O Mestre (S1) comanda o escravo (S2) a trabalhar. O Mestre não sabe nada, ele apenas ordena. O escravo, ao trabalhar, produz um saber (S2) sobre como fazer as coisas. O Mestre então se apropria desse saber. A verdade oculta do Mestre é que ele é um sujeito dividido, castrado ($). O produto dessa operação é a perda de gozo, o mais-de-gozar (a), que o Mestre tenta, em vão, recuperar. É o discurso da dominação, da lei e do poder. Hegel, com sua dialética do senhor e do escravo, é a referência filosófica aqui.

2. O Discurso da Universidade

Agente: S2 → Outro: a Verdade: S1 / Produto: $

Este discurso surge de uma rotação de um quarto de volta do Discurso do Mestre. Aqui, o Saber (S2) está no lugar do agente. É o discurso da ciência, da burocracia, da educação. O Saber se dirige ao estudante ou ao cidadão, tratado como um objeto (a) a ser moldado, educado, preenchido com conhecimento. A verdade oculta é que esse saber serve a um Mestre (S1), a um poder (o Estado, o capital). O produto desse discurso é um sujeito dividido ($), alienado, que se questiona sobre seu lugar nesse sistema de saber. O Discurso da Universidade promete um saber total, mas produz sujeitos cada vez mais perdidos.

3. O Discurso da Histérica

Agente: $ → Outro: S1 Verdade: a / Produto: S2

Este é o discurso que, segundo Lacan, inventou a psicanálise. A Histérica ($), como sujeito dividido e insatisfeito, se dirige ao Mestre (S1) e o desafia: “Diga-me quem eu sou! Dê-me um saber que me defina!”. Ela provoca o Mestre a produzir um saber (S2). A verdade oculta da histérica é que ela se identifica com o objeto a, a causa do desejo, a falta. Ela se faz de desejável para expor a impotência do Mestre em satisfazê-la. Freud, ao escutar as histéricas, foi colocado no lugar do Mestre e forçado a produzir um novo saber: a psicanálise.

4. O Discurso do Analista

Agente: a → Outro: $ Verdade: S2 / Produto: S1

Este é o avesso do Discurso do Mestre. O Analista, no lugar do agente, não opera como um Mestre ou como um Sábio. Ele opera a partir do lugar do objeto a, do semblante de causa do desejo. Ele se oferece como um objeto para o sujeito dividido ($), para que este possa falar, associar livremente e articular a cadeia de seu inconsciente. A verdade oculta do analista é o saber (S2) da psicanálise, mas ele não o enuncia. O objetivo do Discurso do Analista é fazer com que o sujeito produza seus próprios significantes mestres (S1), os significantes que comandaram sua vida e seu sintoma. Ao isolar esses S1, o sujeito pode se separar deles e inventar um novo destino. O Discurso do Analista é o único que visa à produção de um sujeito, em vez de dominá-lo ou educá-lo.

O Discurso Capitalista: Uma Quinta Posição?

Lacan, em uma conferência posterior, propôs uma modificação no Discurso do Mestre para dar conta da especificidade do capitalismo. No Discurso Capitalista, há uma inversão entre o S1 e o ) é colocado no lugar do agente, criando a ilusão de que ele é o mestre de suas escolhas. Ele se dirige ao saber (S2) do mercado para obter os objetos (a) que prometem satisfação. A verdade oculta é que ele é comandado por um significante mestre (S1), o imperativo do lucro e do consumo. A característica principal deste discurso é que ele funciona em um circuito fechado e acelerado, sem a impossibilidade que estrutura os outros quatro. Ele rejeita a castração e promete um gozo ilimitado, o que, paradoxalmente, leva a um mal-estar ainda maior.

Conclusão: A Psicanálise como Contradiscurso

O Seminário 17: O Avesso da Psicanálise é uma das ferramentas teóricas mais poderosas criadas por Lacan. A teoria dos Quatro Discursos nos permite analisar a lógica subjacente a qualquer laço social, seja ele uma relação amorosa, uma sala de aula, uma instituição política ou a própria sessão de análise.

Lacan nos mostra que o Discurso do Analista ocupa uma posição única e subversiva. Ele é o “avesso” porque se recusa a jogar o jogo do poder e do saber. Ao operar a partir do lugar do objeto a, o analista introduz um corte na repetição dos outros discursos. Ele cria um espaço onde o sujeito pode se desalienar dos significantes mestres que o governam e questionar o saber universitário que o objetifica.

Este seminário revela a função política da psicanálise: ser um contradiscurso, um lugar de resistência à dominação e à homogeneização. Em um mundo cada vez mais governado pelo Discurso da Universidade e pelo Discurso Capitalista, o Discurso do Analista oferece um espaço para a emergência da singularidade e da invenção. Para quem busca uma grade de leitura para o mal-estar contemporâneo, o estudo do Lacan Seminário 17 em PDF é absolutamente essencial.

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