Se você estuda a história da psicanálise ou busca compreender os mecanismos do trauma, certamente já se perguntou o que é ab-reação. Este conceito, fundamental no nascimento da clínica psicanalítica, descreve o momento decisivo de descarga emocional que libera um afeto que estava, até então, “preso” ou “estrangulado”.
Neste artigo, exploraremos a definição técnica, a origem histórica com Freud e Breuer, um exemplo clínico concreto e o status atual deste conceito: ele ainda é utilizado ou foi substituído?
Índice
O que é Ab-reação? (Definição)
A ab-reação (do alemão Abreagieren) é um termo introduzido por Josef Breuer e Sigmund Freud para designar a descarga emocional pela qual um indivíduo se liberta do afeto ligado à memória de um evento traumático. Foi introduzido, principalmente, enquanto Freud estudava sua aplicação em pacientes que sofriam de histeria.
Em termos simples, quando vivemos um trauma, muitas vezes a emoção (o afeto) não é processada no momento. Ela fica represada, separada da lembrança consciente. A ab-reação é o processo de reconectar essa memória à emoção e expeli-la através de manifestações físicas e verbais, como o choro, o grito, tremores ou a verbalização intensa.
Segundo o Vocabulário da Psicanálise de Laplanche e Pontalis, a ab-reação pode ser:
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Espontânea: Ocorre logo após o evento (ex: chorar copiosamente após um susto).
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Provocada: Ocorre durante a psicoterapia (originalmente sob hipnose), onde o analista induz a rememoração para liberar o afeto.
A Origem Histórica: O Método Catártico
Para entender a origem do verbete, precisamos voltar a 1895, com a publicação de “Estudos sobre a Histeria”.
Antes da “regra fundamental” da associação livre, Freud e Breuer utilizavam o Método Catártico. A hipótese era econômica e hidráulica: o sintoma histérico (uma paralisia, uma cegueira nervosa, uma tosse crônica) era causado por um “afeto estrangulado”.
O paciente havia passado por uma situação traumática, mas, por convenção social ou choque, teve que reprimir a reação. Sem poder reagir (ab-reagir) no momento, a energia ficava presa no corpo, convertendo-se em sintoma.
“O histérico sofre fundamentalmente de reminiscências.” — Freud & Breuer (1893).
A cura, portanto, dependia da ab-reação: fazer o paciente lembrar do trauma sob hipnose e expressar a emoção retida. Uma vez “limpa a chaminé” (expressão de Anna O.), o sintoma desaparecia.
Exemplo Clínico: A Ab-reação na Prática
Embora a técnica tenha mudado, o fenômeno da ab-reação ainda ocorre. Vejamos um exemplo factível e concreto, adaptado para a clínica contemporânea, sem o uso de hipnose.
O Caso: Um paciente, “João”, procura análise devido a uma enxaqueca crônica que surge sempre que ele precisa falar em reuniões de trabalho, acompanhada de uma sensação de “nó na garganta”.
O Processo: Durante as sessões, João associa essa sensação a um episódio na infância. Aos 8 anos, ele tentou defender o irmão menor de uma bronca injusta do pai. O pai, autoritário, gritou: “Cale essa boca e engula o choro agora!”. João obedeceu, engoliu as palavras e a raiva, ficando paralisado.
O Momento da Ab-reação: Ao relatar essa cena na análise, João não apenas “conta a história”. Ele começa a sentir o rosto esquentar. Sua voz embarga. De repente, ele começa a chorar compulsivamente e, em meio ao choro, grita a frase que não pôde dizer aos 8 anos: “Não foi culpa dele! Você é injusto!”.
Ele treme, soa frio e chora por vários minutos.
O Resultado: Isso é uma ab-reação. A energia da raiva e da indignação, represada por décadas e convertida em enxaqueca/nó na garganta, foi descarregada. O “nó” se desfez através da fala e do afeto liberado.
Não necessariamente esse sintoma foi resolvido ou não mais retornará, porém, esse exemplo ilustrativo foi dado para demonstrar como Freud cria, à época em que estava a descobrir sobre os mecanismos da psique.
A Evolução do Conceito: A Ab-reação caiu em desuso?
Esta é uma pergunta crucial. A resposta é: A ab-reação deixou de ser o objetivo final da cura, mas não desapareceu como fenômeno clínico.
Historicamente, Freud percebeu que a ab-reação, por si só, muitas vezes trazia apenas um alívio temporário. O paciente descarregava a emoção, mas logo o sintoma retornava ou se deslocava, pois a estrutura psíquica e as resistências não haviam sido trabalhadas.
De Ab-reação para Perlaboração (Durcharbeiten)
A partir de textos como “Recordar, Repetir e Elaborar” (1914), Freud muda o foco técnico.
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Antes (1895): O foco era a Catarse (limpeza via ab-reação).
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Depois (1914 em diante): O foco passou a ser a Elaboração (ou Perlaboração).
Não basta vomitar o afeto (ab-reagir) ou entender o que é ab-reação. O paciente precisa integrar essa vivência à sua cadeia associativa, entender os motivos do recalcamento e trabalhar as resistências.
Portanto, o termo não foi “substituído”, mas foi rebaixado de método de cura para momento do tratamento. Hoje, a psicanálise entende que a ab-reação é importante (especialmente em casos de Transtorno de Estresse Pós-Traumático – TEPT), mas ela deve ser seguida de um trabalho de simbolização e elaboração para que a mudança seja duradoura.
Resumo dos Principais Pontos
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Definição: Descarga emocional que libera um afeto ligado a uma memória traumática.
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Obra Principal: Estudos sobre a Histeria (Freud & Breuer, 1895).
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Mecanismo: Reconexão entre representação (memória) e afeto (emoção), seguida de descarga.
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Status Atual: Ainda ocorre e é válida, mas é insuficiente se não acompanhada da elaboração psíquica.
Referências Bibliográficas para aprofundamento:
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BREUER, J. & FREUD, S. (1895). Estudos sobre a histeria. Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud, vol. II. Rio de Janeiro: Imago.
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FREUD, S. (1914). Recordar, repetir e elaborar. Edição Standard Brasileira, vol. XII.

Sou Cristian, psicanalista. Minha prática combina escuta atenta, criatividade e empatia, criando espaços acolhedores para expressão e individuação. Atendo online, oferecendo um ambiente seguro e respeitoso para cada pessoa explorar sua singularidade com autenticidade.





